- Meu vizinho morreu de febre amarela...
- Nossa, que cor horrível!
Uma boa parte da população, diante de alguma desgraça, pega o secundário da questão e deixa pra lá o principal. É uma forma de se esquivar daquilo que, em verdade, incomoda. Tem coisa que é melhor não pensar.
Entretanto, quando a verdade verdadeira bate à porta, é melhor abrir e enfrentar. Tem coisa que é melhor encarar.
A tuberculose é doença que persegue a raça humana desde há 500 mil anos. Matando um punhadinho de gente aqui; morrendo uma safrinha de bactérias acolá, tudo dentro das normas da mais absoluta civilidade e cortesia. Mas, de um tempo pra cá, elas resolveram enfezar.
São números que não mentem. Segundo a Organização Mundial da Saúde:
Um terço da população mundial está infectada.
Uma em cada 10 pessoas infectadas se tornará doente.
Está matando 2 milhões e infectando 8 milhões de pessoas por ano.
Provoca uma morte a cada 20 segundos.
Já é a segunda causa de morte por infecção no mundo (atrás só do HIV).
Nos países em desenvolvimento estão 90% das doenças e 98% das mortes.
No Brasil são 50 milhões de infectados e 6.000 mortos por ano.
Cada doente infectado contamina 10 outras pessoas antes de ser tratado.
A cada antibiótico de primeira linha surge uma turminha resistente.
A Mycobacterium tuberculosis - que não poupou o rei Luís XIII, Chopin, Molière, George Orwell, Richelieu, Rousseau, o ecologista-mor Henry Thoreau, e milhões de anônimos não menos importantes - é de rápida multiplicação, desequilibra o sistema imunológico, ataca órgãos, como cérebro, ossos, rins e, em 75% dos casos, os pulmões, onde destrói os tecidos, provoca tosse intensa, dor no peito e escarro sanguinolento.
Pelo visto, esta doença que afeta ricos e pobres, jovens e velhos, cautelosos e imprudentes está longe do fim.
A vacina, chamada BCG, protege apenas a forma infantil grave.
Remédios promissores, que prenunciaram o fim da doença, falharam. Como aqueles usados hoje foram desenvolvidos nos anos 50 e 60, e o tratamento de 9 meses, se não cumprido rigorosamente, leva à resistência da bactéria, é preciso desenvolver drogas baratas e de fácil administração.
Estima-se em 240 milhões de dólares, e entre 7 a 10 anos, o desenvolvimento de cada droga eficaz contra a doença.
Por isso, identificar as armas que combaterão, com sucesso, a bactéria é hoje o grande objetivo. Nos laboratórios estão em teste drogas que inibem o DNA da bactéria, outras que alteram sua respiração, mais uma que interrompe sua reprodução, algumas que lhe priva de energia, outras mais que não lhe deixa fazer proteínas... Uma verdadeira corrida armamentista.
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos,
A vida inteira que poderia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico.
Diga trinta e três.
Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
Respire
O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino
Manuel Bandeira brincava de forma maravilhosa, em Pneumotórax, talvez seu mais ilustre poema. Aqui, no mundo dos ainda vivos é preciso falar sério.