O ministro da Pesca e Aquicultura, Altemir Gregolin, esteve em Londrina recentemenete para assinatura de convênios de incentivo à pesca e à produção de peixes na região Norte do Paraná. Na ocasião, encontrou-se com o deputado estadual Luiz Eduardo Cheida, presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná. Cheida, quando foi secretário estadual de Meio Ambiente, criou o primeiro tanque para produção comercial de peixes no município de Bandeirantes, cinco anos atrás. O ministro e o deputado - que também é médico - concordam: o brasileiro precisa consumir mais peixes.
Republicamos abaixo crônica escrita por Cheida e publicada originalmente neste espaço em 11 de janeiro de 2008:
TUDO A SEU TEMPO
Há anos espero pelo momento de levar meus filhos para pescar.
Meu pai fazia isso e mal sabia eu que, nestas pescarias, era onde ele plantava e regava no meu peito esse negócio de gostar de natureza. Aliás, é dele a frase lapidar:
- Filho, a natureza é a coisa mais linda e mais feia que existe!
Nunca encontrei quem descrevesse com tal síntese o paradoxo amor e temor que todos nutrimos pelo mundo natural.
Além de duas meninas, uma bióloga e outra jornalista, tenho um menino que faz quatro anos amanhã e outro que já tem cinco.
Há um certo tempo, lá atrás, chegou o dia!
Varinha de bambu número 2, linha de nylon 0,20, anzol 2, para lambari e seus parentes, chumbada miúda, chapéu de palha, camisa de manga comprida contra mutuca e pernilongo, botinas, embornal de algodão a tira-colo e massa de farinha de trigo como isca.
- Minhoca, não, porque a gente somos ecologista – acode o mais velho.
De cócoras no barranco, a primeira regra é falar pouco ou não falar.
E de posse destas ordens, foi que a conversa entre os dois começou:
- Pedo, poique o pexe vem? – perguntou o mais novo.
- Ele vem comer a massinha e enrosca a língua no anzol - respondeu Pedo, digo, Pedro.
- Sai sangue?
- Não.
- Então, poique ele morre?
- Porque o papai falou que peixe só respira dentro da água.
- Ele não tem nariz?
- Fica quieto, Miguel!
- Não tem nariz?
- Não sei!
- Não tem nariz?
Resolvi intervir:
- Tem, filho, mas o narizinho do peixe é só para ele cheirar.
- Então, poique ele morre?
- Morre porque a gente tira ele da água e ele morre sufocado.
O silêncio do mais novo e os olhos marejados do mais velho, ambos olhando para mim, fizeram com que eu me sentisse o mais estúpido vivente sobre a Terra. Em matéria de pescarias, era cedo demais para eles, descobri num estalo. Só a minha ansiedade justificava tal leviandade.
Mas, possivelmente, sentindo meu embaraço e em socorro aos meus arrependimentos, foi o Miguel quem quebrou o mal-estar gerado por suas próprias perguntas:
- E não pode jogar o pexe no afalto né, pai? [Nota do Tradutor: asfalto].
- Por quê? – perguntei, fincando o cabo da vara no barranco.
- Poique ele morre atopelado – franziu o olhar.
- Atopelado! Há! há! há! É atropelado, que a gente fala... – caçoou o mais velho, entendendo a conversa pelo lado avesso.
O outro, bravo com a brincadeira, enfezou-se e se esqueceu do peixe.
De certa forma aliviado, recolhendo a traia, eu também ria:
- Entre mortos e feridos...
Voltaremos a pescar. Tudo a seu tempo.
Por enquanto, feliz aniversário, Miguel!
Um forte abraço